Monthly Archives: Setembro 2009

Presidência: entre escutas e bruxas, em que ficamos?

Há algum tempo, entreti-me aqui a debitar algumas palavras, sobre a “silly season”, ou se quisermos, utilizando uma linguagem mais popularucha, a época dos tolos.

Esta época dos tolos, foi sempre um momento óptimo, para se dizer ou fazer, o que não temos coragem de fazer no resto ano.

Confesso, que não faço a “mínima” [ideia], das razões que levam à identificação desta época, como a época dos tolos.

orelha3[1] Foi também neste período, que se começou a teorizar, sobre as hipotéticas escutas à Presidência da República.

No meio daquela cena da mudança de bandeiras na Câmara de Lisboa, a notícia até me deixou todo baralhado.

No caso das bandeiras, ainda pensei que fosse uma manobra publicitária dos “Gatos Fedorentos”, mas rapidamente percebi que era coisa de tolos a sério.

No caso do PR, a notícia já me tirou do sério…

Quero dizer, não sei bem se fiquei sério, se sorri, pois não consegui pensar alguma coisa coerente.

Que há escutas, é coisa que todos sabemos. Também há bruxas e se fizermos esforço, também podemos acreditar em Gnomos.gifs-animados-orkut-bruxas-05[1]

Até acredito, que de certeza, há alguém, destacado, para lêr as minhas palavras e assim tentar absorver e retirar, as minhas mensagens subliminares.

E acredito nisto tudo, porque, como todos nós, tenho uma costelazinha de teórico da conspiração.

E as escutas, são como as Bruxas: “ …Que las hay, las hay!”

Agora o que me preocupou, foi o prolongamento da época.

Chegámos a Setembro, o grande momento, em que se colocam professores e se  prepara o início do ano lectivo, que é como quem diz, uma época mais séria, pois prepara-se o futuro dos mais novos e, insistentemente, continua-se a falar das escutas e do Sr. Presidente da República.

Aí os meus sentidos, ainda dormentes da época anterior, puseram logo as anteninhas no ar, a coisa, agora, sim!

Parecia coisa séria…

Mas afinal o que se está a passar?

…Aquela velha pergunta de retórica, que tarde ou nunca, conhecemos a resposta!

Como acredito que há bruxas ( nunca vi nenhuma – consta que arderam todas!), também acreditei nesta coisa das escutas.

E também acreditei, que o Sr. Presidente, viesse logo satisfazer a curiosidade de todos nós.

Se eu for escutado, é claro que ninguém liga, até eu!

Mas agora a Presidência da República, é outra história…Ficamos logo todos de olhos revirados a olhar para ele.

E ficámos…

Mas em Agosto, só se ouviu o som das ondas…

Em Setembro, andávamos tão entretidos com o início do ano escolar e no meio, ainda andávamos em campanha eleitoral, que o Sr. Presidente, achou que não nos devia incomodar.cavacosilva2

É legítimo, só se deve incomodar as pessoas, quando temos motivos sérios e ponderosos para o fazer, de outra maneira, devemos deixar descansado, quem anda atarefado.

Depois, lá para o fim de Setembro, deu-se aquela coisa das eleições.

Foi uma felicidade, mais feliz para uns e, menos feliz para outros.

Assim uma coisa tipo: Todos diferentes e todos tão iguais!

E no meio desta felicidade, o Sr. Presidente, finalmente, deu-se ao trabalho de nos incomodar, com os seus problemas.

Como muito bem referiu, até nem costuma fazer coisas destas.

Só o fez, porque foi obrigado.

santinhoE eu acredito que foi obrigado, porque ele me disse e, eu sou dos que vou acreditando nele, porque é o meu Presidente e, se eu não acreditar no Presidente, vou afinal, acreditar em quem??

E eu acreditei em tudo…

O problema, é que não percebi bem…

Afinal, em que é que tenho de acreditar??

Ulisses Neves Pinto

P.S.: Para os mais desatentos, por causa das escutas, tive de utilizar o branco em algumas frases. Umas gotinhas de limão e ficam com o problema resolvido.

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Até o Provedor

Há momentos infelizes!
A intervenção, de ontem, do Presidente da República revela que até o PR tem dias muito infelizes. É vê-lo na pele do cidadão Aníbal Cavaco Silva. É difícil, para não dizer impossível ver neste registo o Presidente de todos os portugueses. Em vez disso, temos um cidadão comum, um discurso em que muitas das coisas não fazem sentido, desde logo o não ter actuado há mais tempo, não o ter feito nos locais e com as pessoas certas, falta de tacto no timing escolhido, e pasme-se a alta preocupação com o sistema informático de Belém que, segundo o PR regista alguma vulnerabilidade. Até no Pentágono isso acontece.

Há maldades escondidas!
Por tudo isto, sente-se que a máscara caiu e ficou o homem, com sentimentos de raiva, de intolerância, com ódios de estimação…

Há poeira no ar!
O que resta? Muita ambiguidade, muito por dizer. Será que há mesmo algo mais a dizer. Para o cidadão comum, fica quase a certeza que alguém tramou Belém (PR). Acaso a “guerra” que rebentou no Público? Despedimentos, negociação de contratos, ambiente de cortar à faca. Não esquecer a polémica entre o JMF e o Joaquim Vieira, o provedor do leitor. Com estes ingredientes, alguém verdadeiramente ferido de morte pode ter dado a conhecer aos dois jornais a informação que só o Diário de Notícias publicou. Até esse momento, nada tinha acontecido de concreto, nem desmentidos, nem o afastamento de nenhum assessor, nem sequer a avaliação do sistema informático, este só foi analisado ontem.

Não admira que todos os portugueses digam à boca cheia que é preciso mais explicações. Até o Provedor da Justiça, enquanto cidadão, referiu precisar de ser esclarecido.

Aguardemos os próximos episódios, o Dr. Aníbal Cavaco Silva sempre nos tem brindado com os seus tabus. Só lamentamos que a sua temosia não o deixe ouvir quem tem bom senso.

Ana de Sousa

Parabéns

Para o Ulisses os nossos parabéns e votos de um dia 22 cheio de coisas boas junto das suas meninas.
Um abraço amigo,
Ana e Rogério

Parar para ouvir

Nestes tempos de tanta agitação, achei por bem partilhar convosco um texto de um amigo de longa data, o padre Anselmo Borges. Além de voz importante enquanto teólogo e filósofo, foi o padre que celebrou o meu casamento (1975) e o baptizado da minha única filha, pela admiração que me merece e pelos belos textos que escreve ao sábado, no Diário de Notícias, aqui vai a sua última crónica de 19 de Setembro de 2009.

“Ouvir o silêncio” por Anselmo Borges

No meio da vertigem das tempestades de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, tal- vez se torne urgente parar. Para ouvir.

Ouvir o quê? Ouvir o silêncio. E só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária que fala no silêncio?

Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve?

Ouvir o quê? Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada.

Ouvir o quê? Ouvir os gemidos dos pobres, os gritos dos explorados, dos abandonados, dos que não podem falar, das vítimas das injustiças.

Ouvir o quê? Talvez Deus – um dia ouvi Jacques Lacan dizer que os teólogos não acreditam em Deus, porque falam demasiado dele -, o Deus que, no meio do barulho, só está presente pela ausência.

Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, depois de ouvir o seu daímon, a voz do deus e da consciência.

Ninguém sabe se Deus existe ou não. Como escreve o filósofo André Comte-Sponville, tanto aquele que diz: “Eu sei que Deus não existe” como aquele que diz: “Eu sei que Deus existe” é “um imbecil que toma a fé por um saber”. Deus não é “objecto” de saber, mas de fé. E há razões para acreditar e razões para não acreditar.

Comte-Sponville não crê, apresentando argumentos, mas compreendendo também os argumentos de quem crê. Numa obra sua recente, L’Esprit de l’athéisme, mostra razões para não crer, mas sublinhando a urgência de pensar, se se não quiser cair no perigo iminente de fanatismos e do niilismo, e, consequentemente, na barbárie, “uma espiritualidade sem Deus”.

Constituinte dessa espiritualidade, no quadro de um “ateísmo místico”, é precisamente o silêncio. “Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja a verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade.”

Encontrei Raul Solnado apenas uma vez. Num casamento. Surpreendeu-me a imagem que me ficou: a de um homem reflexivo. Não professava nenhuma religião. Por isso, não teve funeral religioso. Mas deixou um pequeno escrito, com uma experiência, no silêncio, na Expo, em Lisboa, em 2007.

“Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso. Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz. Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo. Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim queira.”

Ana de Sousa

Os Velhos do Restelo…

“Estas sentenças tais o velho honradocamoes3
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: “Boa viagem”, logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.”

 

Quando era um ditoso estudante do ensino secundário, os Lusíadas eram um tema quente, para todos aqueles que aspiravam avançar no nível dos seus conhecimentos.

Era um  tema quente e um tema fogoso…Aquele conjunto estruturado de sonetos, foram para mim e, para os meus colegas uma autêntica escalada até ao pico da sua compreensão!

Nesse tempo, os velhos do Restelo, eram corporizados por aqueles, que irrazoavelmente, se opunham ao desfraldar das velas e à largada das naus, a caminho do conhecimento desconhecido!baco2

Mas o desconhecido, não era ignorância…era a sobrevivência da razão do  heliocentrismo, no meio de muito irracionalismo geocentrista!

Os velhos do restelo eram geocentristas, eram o poder!

Os heliocentricos, eram menos e, se quisermos, delimitavam-se numa minoria iluminada…e razoavelmente culta!

Naquele tempo os velhos do Restelo governavam o Mundo!

Ao ler hoje um artigo de fundo da Sr.ª Ministra da Educação, surgiu-me uma dúvida, que sem margem para dúvidas, tem de ser existencialista:

Quando definimos os velhos do Restelo, qual o critério que devemos aplicar?

– Será que se devem considerar velhos do Restelo, todos aqueles que se opõem ao governo e, no mesmo sentido consideramos os nossos ministros, como o universo dos iluminados?

– Ou pelo contrário, será razoável pensar que somos todos humanos, sujeitos ao erro e que, por maioria de razão, será mais fácil acreditar que os velhos do Restelo estão no governo, sendo os iluminados, aqueles que imaginam a DEMOCRACIA, num plano de diálogo e oposição de ideias.

Do tempo destes velhos do Restelo, d’ “Os Lusíadas”, podemos recordar que os governos da época, eram convulsivamente surdos, teimosamente monologantes e, estupidamente imunes ao erro.

O sucesso de qualquer reforma, depende substancialmente do grau de entendimento e envolvimento do grupo alvo.

No caso específico da educação talvez fosse curioso lembrar as palavras de Roberto Carneiro, ex-Ministro da Educação:

“…Não vamos, de facto, conseguir fazer a Reforma Educativa, nem reabilitar o sistema sem a empenhada motivação dos professores e sem a promoção qualitativa do serviço docente. É na sala de aula e na relação entre o professor e o aluno, que se vai jogar o êxito ou o inêxito da Reforma”.

É por isso que eu valorizo a DEMOCRACIA e o DIÁLOGO, desvalorizando este Valorizar da POLÍTICA…

Talvez fosse tempo de, racionalmente, mostrar bom senso, nas palavras e nas ideias. 

Como os Velhos do Restelo, também eram cegos, surdos e mudos, pergunto-me:
Afinal de que lado estão os Velhos ?

Ulisses Neves Pinto

Dar a volta ao texto

É preciso avisar toda a gente. Estamos num tempo de facas afiadas e os lobos vestem pele de cordeiro.
Vem isto a propósito do texto: “A educação sexual e D. Afonso Henriques”, do padre Gonçalo Portocarrero de Allmada, publicado no Jornal Público de 30 de Agosto último.
O seu conteúdo causou-nos perplexidade e imensas interrogações, desde logo quem era o seu autor, satisfeita a curiosidade (a internet deu uma ajuda), a segunda foi o artigo ter sido publicado num jornal de referência e, por fim, como é possível em pleno século XXI um homem tão culto e com bastantes responsabilidades na sociedade (padre, vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família) escrever semelhantes enormidades. Afinal, ter muito saber e responsabilidades sociais não é sinónimo de abertura e compreensão. Este artigo é “perigoso” por ter sido escrito por quem foi, de outro modo teria sido considerado um texto desmiolado e sem qualquer sentido para os dias de hoje, pelo rídiculo do seu conteúdo e, de certeza não teria publicado. O autor, deliberadamente adultera um projecto tão importante como “a educação sexual” e, consegue publicá-lo. Esperemos que como “não há almoços grátis”, este texto, neste jornal, e neste momento do ano não tenha uma “finalidade”.
É preciso estar atento, estes pensamentos é que são verdadeiramente asfixiantes na vida dos portugueses.

Ana de Sousa