“Estas sentenças tais o velho honrado
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: “Boa viagem”, logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.”
Quando era um ditoso estudante do ensino secundário, os Lusíadas eram um tema quente, para todos aqueles que aspiravam avançar no nível dos seus conhecimentos.
Era um tema quente e um tema fogoso…Aquele conjunto estruturado de sonetos, foram para mim e, para os meus colegas uma autêntica escalada até ao pico da sua compreensão!
Nesse tempo, os velhos do Restelo, eram corporizados por aqueles, que irrazoavelmente, se opunham ao desfraldar das velas e à largada das naus, a caminho do conhecimento desconhecido!![]()
Mas o desconhecido, não era ignorância…era a sobrevivência da razão do heliocentrismo, no meio de muito irracionalismo geocentrista!
Os velhos do restelo eram geocentristas, eram o poder!
Os heliocentricos, eram menos e, se quisermos, delimitavam-se numa minoria iluminada…e razoavelmente culta!
Naquele tempo os velhos do Restelo governavam o Mundo!
Ao ler hoje um artigo de fundo da Sr.ª Ministra da Educação, surgiu-me uma dúvida, que sem margem para dúvidas, tem de ser existencialista:
Quando definimos os velhos do Restelo, qual o critério que devemos aplicar?
– Será que se devem considerar velhos do Restelo, todos aqueles que se opõem ao governo e, no mesmo sentido consideramos os nossos ministros, como o universo dos iluminados?
– Ou pelo contrário, será razoável pensar que somos todos humanos, sujeitos ao erro e que, por maioria de razão, será mais fácil acreditar que os velhos do Restelo estão no governo, sendo os iluminados, aqueles que imaginam a DEMOCRACIA, num plano de diálogo e oposição de ideias.
Do tempo destes velhos do Restelo, d’ “Os Lusíadas”, podemos recordar que os governos da época, eram convulsivamente surdos, teimosamente monologantes e, estupidamente imunes ao erro.
O sucesso de qualquer reforma, depende substancialmente do grau de entendimento e envolvimento do grupo alvo.
No caso específico da educação talvez fosse curioso lembrar as palavras de Roberto Carneiro, ex-Ministro da Educação:
“…Não vamos, de facto, conseguir fazer a Reforma Educativa, nem reabilitar o sistema sem a empenhada motivação dos professores e sem a promoção qualitativa do serviço docente. É na sala de aula e na relação entre o professor e o aluno, que se vai jogar o êxito ou o inêxito da Reforma”.
É por isso que eu valorizo a DEMOCRACIA e o DIÁLOGO, desvalorizando este Valorizar da POLÍTICA…
Talvez fosse tempo de, racionalmente, mostrar bom senso, nas palavras e nas ideias.
Como os Velhos do Restelo, também eram cegos, surdos e mudos, pergunto-me:
Afinal de que lado estão os Velhos ?
Ulisses Neves Pinto