VIA LATINA

O que se passou no Jornal Público?

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A mudança anunciada do director do jornal nada teria de inédito não fosse o conteúdo dos dois últimos editoriais, o de despedida de 31 de Outubro, da responsabilidade do José Manuel Fernandes e o editorial de hoje, dia 1 de Novembro.

A saída de JMF, segundo ele, pensada desde Maio último nada tem de anormal. Afinal tem 52 anos, 11 dos quais como director do jornal, ainda, é jovem para fazer outras coisas. Até aqui tudo bem.

Do seu editorial destaco dois parágrafos:

(…)
“Pela exigência que sempre colocámos em tudo quanto fizemos, mesmo nos projectos que nunca chegaram tão longe quanto desejámos. Exigência editorial, marca de água desta casa. Mas também exigência como projecto empresarial, pois a Sonae, correctamente, nunca desistiu de conjugar o sucesso editorial com o sucesso empresarial.”
(…)
“É mesmo condição de vitalidade de uma democracia aberta ter jornais que publicam histórias incómodas, e directores que escrevem textos controversos.”

Do editorial de hoje, dia 1 de Novembro, realço os seguintes parágrafos:
(…)
“A razão de estarmos aqui hoje é anterior a tudo isso. (Referem-se aos incidentes que rodearam a última campanha para as legislativas). Mas não escamoteamos o facto de ser nossa primeira obrigação repor essa credibilidade ameaçada, conscientes que estamos da percepção pública de um excesso de peso ideológico no jornal. Acreditamos num jornalismo culto e responsável, que desafia o sensacionalismo e as agendas informativas cada vez mais estreitas.”
(…)
“Os editoriais, a partir de hoje, deixarão de ser assinados. Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página.”
(…)
“Não queremos inflacionar as expectativas, queremos corresponder aos leitores. Sabemos que o PÚBLICO é o jornal dos leitores exigentes, curiosos e atentos, das pessoas que pensam e que querem que o seu jornal seja um instrumento para pensar mais. Os nossos leitores – 250 mil por dia – são pessoas que sabem e que querem saber mais. São os melhores – e os mais severos – leitores.”

Não posso estar mais de acordo com este último parágrafo. Votos de bom trabalho e maior isenção.

Para reflexão, deixo o último parágrafo do Cândido, de Voltaire, Pangloss dizia por vezes a Cândido:

– Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; porque, enfim, se vós não tivésseis sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se vós não tivésseis passado pela Inquisição, se vós não percorrêsseis a América a pé, se vós não tivésseis dado um golpe de espada no barão, se vós não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do maravilhoso Eldorado, vós não estaríeis aqui a comer os limões, doces e pistácios.

Ana de Sousa

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